Interoperabilidade
HL7, FHIR e ASTM: quando usar cada um no laboratório
Três padrões, três problemas diferentes. ASTM fala com o analisador na bancada, HL7 v2 fala com o hospital, FHIR fala com a web moderna — e trocar um pelo outro custa meses de integração refeita.
Equipe Omnix7 min de leitura
Os três aparecem na mesma frase em quase todo edital, como se fossem alternativas. Não são: cada um resolve um problema, e a maioria dos laboratórios usa os três ao mesmo tempo.
ASTM — a conversa com o analisador
ASTM E1394 define o conteúdo da mensagem; E1381, o transporte de baixo nível (a camada serial). Também chamado de LIS2-A2 na versão CLSI.
É o que roda entre o LIS e o equipamento de bancada. Mensagens curtas, hierarquia rígida — cabeçalho, paciente, pedido, resultado, terminação —, tipicamente sobre serial ou TCP.
Onde entra: worklist enviada ao analisador e resultado devolvido. Fora da bancada, ASTM não serve para nada.
HL7 v2.x — a conversa com o hospital
O padrão de mensageria clínica que sustenta a maior parte da integração hospitalar instalada no mundo. Segmentos separados por |, tipos de mensagem por evento:
- ADT — admissão, alta, transferência: é assim que o LIS sabe que o paciente existe;
- ORM — pedido de exame vindo do HIS;
- ORU — resultado devolvido ao HIS.
Onde entra: integração com o sistema hospitalar, com outro LIS, com laboratório de apoio. É verboso e cheio de campos opcionais, o que na prática significa que cada integração tem um perfil próprio — a mesma mensagem ORU tem interpretações diferentes em dois hospitais, e é por isso que integração HL7 nunca é só “ligar o cabo”.
FHIR R4/R5 — a conversa com o resto do mundo
Recursos REST em JSON, com identidade própria e referências entre si:
Patient— o paciente;ServiceRequest— a solicitação de exame;Specimen— a amostra;Observation— um resultado, um recurso;DiagnosticReport— o laudo que agrupa as observações.
Onde entra: portal do paciente, aplicativo, integração com sistemas modernos, exportação da base. É o padrão que torna a saída dos seus dados possível sem projeto — e, por isso, o melhor argumento contra o aprisionamento em fornecedor.
Detalhe que muda o desenho: em FHIR, cada parâmetro é um Observation. Um hemograma vira um DiagnosticReport com cerca de 30 Observation referenciadas. Se o LIS guarda o hemograma como um bloco de texto, não há como gerar esses recursos — e a “compatibilidade FHIR” fica no material de venda.
O quadro
| ASTM | HL7 v2.x | FHIR | |
|---|---|---|---|
| Interlocutor | analisador | HIS, outro LIS, apoio | web, app, portal |
| Formato | texto delimitado | texto delimitado | JSON sobre REST |
| Granularidade | resultado por teste | mensagem por evento | recurso por conceito |
| Onde falha | fora da bancada | perfis divergentes | requer modelo granular |
O erro caro
Escolher o padrão antes de arrumar o modelo de dados. Nenhum dos três resolve resultado guardado como texto: a mensagem sai, mas sai pobre, e o receptor não consegue comparar, plotar nem alertar.
O que sustenta os três ao mesmo tempo é o resultado por parâmetro, com unidade, faixa de referência resolvida e código — de preferência LOINC. Com isso, o mesmo dado vira segmento OBX em HL7, registro de resultado em ASTM e Observation em FHIR sem retrabalho.
Comece pelo modelo. O protocolo é a parte fácil.
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