Qualidade
As seis regras de Westgard na prática, sem decoreba
1-2s, 1-3s, 2-2s, R-4s, 4-1s e 10x deixam de ser sopa de letras quando se entende o que cada uma detecta: erro aleatório, erro sistemático ou desvio lento. E só duas delas devem bloquear a corrida.
Equipe Omnix7 min de leitura
Westgard é ensinado como tabela para decorar, e é por isso que costuma ser aplicado como carimbo. As seis regras clássicas fazem sentido quando se pergunta, para cada uma, que tipo de erro ela enxerga.
Antes: todas operam sobre o mesmo material — valores de controle interno, comparados à média e ao desvio-padrão (DP) estabelecidos para aquele lote de controle, naquele método, naquele equipamento. Média emprestada de outro lote invalida tudo o que vem depois.
As seis, pelo que detectam
| Regra | Dispara quando | O que costuma indicar | Severidade típica |
|---|---|---|---|
| 1-2s | um valor além de 2 DP | ruído; sozinha, quase sempre falso alarme | aviso |
| 1-3s | um valor além de 3 DP | erro aleatório grande | crítica |
| 2-2s | dois consecutivos além de 2 DP, do mesmo lado | erro sistemático — deslocamento | crítica |
| R-4s | dois consecutivos com diferença maior que 4 DP | erro aleatório — imprecisão | crítica |
| 4-1s | quatro consecutivos além de 1 DP, do mesmo lado | tendência iniciando | aviso |
| 10x | dez consecutivos do mesmo lado da média | desvio lento, já instalado | crítica |
A 1-2s é a mais mal usada. Ela sozinha rejeita cerca de 5% das corridas boas — é a taxa esperada de uma distribuição normal. Usá-la como critério de rejeição gera repetição desnecessária e, pior, ensina a equipe a ignorar alarme. Seu papel é ser gatilho de inspeção: dispara, olha-se as demais.
Deslocamento e tendência não são a mesma coisa
- Deslocamento (shift) é o pulo: o método passou a medir 4% acima e ficou lá. Aparece em 2-2s e, se ninguém agir, vira 10x. Causa clássica: troca de lote de reagente ou de calibrador.
- Tendência (trend) é a ladeira: o valor sobe um pouco por dia. Aparece em 4-1s antes de aparecer em qualquer outra. Causa clássica: deterioração — lâmpada, eletrodo, reagente perdendo estabilidade após aberto.
Por isso o gráfico de Levey-Jennings precisa marcar quando o lote mudou. Sem essa marca, deslocamento e tendência viram a mesma mancha no gráfico, e a investigação começa errada.
O que deve bloquear a liberação
Aqui a decisão é do laboratório, e o sistema deve permitir configurá-la — mas o padrão defensável é:
- bloqueiam: 1-3s, 2-2s, R-4s e 10x;
- alertam: 1-2s e 4-1s.
Bloquear significa não liberar resultado de paciente daquela corrida até a investigação. Se o sistema apenas pinta a tela de vermelho e deixa liberar, a regra é decorativa — e a decoração é auditada como controle inexistente.
O que o LIS precisa fazer sozinho
- Aplicar as regras no momento em que o valor de controle é lançado, não num relatório mensal.
- Conhecer média e DP por lote de controle, método e equipamento — três dimensões, não uma.
- Abrir não conformidade automática na violação crítica, já vinculada ao equipamento e ao lote.
- Manter o Levey-Jennings com as marcas de troca de lote e de calibração.
- Registrar a ação tomada e permitir a liberação apenas depois dela.
Erro que anula todo o resto
Rodar controle uma vez por dia, sempre no mesmo horário, no mesmo nível. Duas consequências: perde-se o comportamento em concentrações relevantes (um método pode estar ótimo no nível normal e péssimo no patológico) e cria-se um ponto cego de 23 horas.
Dois níveis, dois momentos, e as seis regras avaliadas na entrada. O resto é gráfico bonito.
Leitura relacionada
- ISO 15189: o que o sistema precisa ter antes de buscar acreditação
A acreditação não avalia o software, avalia o laboratório. Mas metade das evidências pedidas nasce no sistema — e quem chega ao processo com LIS que só emite laudo descobre isso tarde.
- Rastreabilidade de lote de reagente: o vínculo que salva um recall
Controlar estoque é saber quanto tem. Rastreabilidade é saber qual exame consumiu qual lote — e é essa segunda pergunta que decide se um recall custa meia hora ou uma semana de revisão.
- Não conformidade e CAPA: o fluxo que a RDC 786 espera do sistema
Registrar o problema é o primeiro dos seis passos. O que a norma audita é o caminho entre a ocorrência e a prova de que ela não volta — e esse caminho tem estados, prazos e responsáveis.