Qualidade
Não conformidade e CAPA: o fluxo que a RDC 786 espera do sistema
Registrar o problema é o primeiro dos seis passos. O que a norma audita é o caminho entre a ocorrência e a prova de que ela não volta — e esse caminho tem estados, prazos e responsáveis.
Equipe Omnix6 min de leitura
O livro de ocorrências resolvia o problema da RDC 302: havia onde escrever. Os Arts. 53-58 da RDC 786/2023 pedem outra coisa — um fluxo com estados, em que cada não conformidade caminha do registro até a prova de eficácia.
A diferença prática: uma NC bem descrita e nunca fechada deixou de ser evidência de controle e passou a ser evidência de descontrole.
Os seis estados
- Registro — descrição, data e responsável. Quem viu registra; não precisa saber a causa.
- Classificação — crítica, maior ou menor. É o que define prazo e quem precisa ser avisado.
- Investigação de causa raiz — a pergunta é por que aconteceu, não quem errou.
- Ação corretiva proposta, com prazo e responsável nomeado.
- Verificação de eficácia — a ação resolveu? Em que evidência isso se apoia?
- Fechamento com aprovação — por quem tem autoridade para fechar.
Cada passagem de estado é um evento com autor e data. É isso que permite responder à pergunta da auditoria: “quanto tempo, em média, entre a abertura de uma NC crítica e a verificação de eficácia?”. Campo de texto não responde; máquina de estados responde.
De onde as NCs devem nascer sozinhas
A NC digitada à mão é a minoria saudável. As que mais importam deveriam nascer do próprio sistema, sem intervenção:
- desvio de temperatura no recebimento da amostra (Arts. 41-44);
- estouro do prazo de transporte contra o tempo máximo do trajeto;
- rejeição de amostra na triagem, citando o critério cadastrado no exame — não texto livre;
- regra de Westgard violada no controle interno;
- lote de reagente vencido consumido, ou tentativa de consumo.
Quando a NC nasce do evento, três coisas acontecem de graça: a data é a real, o vínculo com a amostra ou o lote já existe, e ninguém “esquece” de abrir.
Classificação define prazo, não formalidade
Classificar por classificar vira campo obrigatório que todo mundo preenche com “menor”. A classificação só tem função se ela puxa consequência: prazo de investigação, escalonamento automático, bloqueio de liberação enquanto pendente.
Um critério simples e defensável:
| Classe | Critério | O que dispara |
|---|---|---|
| Crítica | afeta resultado já liberado ou segurança do paciente | comunicação imediata ao RT e prazo curto |
| Maior | afeta processo, sem laudo comprometido | investigação com prazo definido |
| Menor | desvio pontual, sem impacto em resultado | registro e tendência |
O valor está na tendência: dez NCs menores idênticas no mesmo ponto do processo são uma NC maior que ninguém classificou.
Causa raiz não é o nome de quem estava de plantão
A investigação que termina em “falha do colaborador” é a que garante reincidência. Se a etiqueta saiu trocada, a pergunta útil é por que o processo permite que saia trocada — e a ação corretiva mexe no processo ou no sistema, não na pessoa.
Por isso o campo de causa raiz precisa vir acompanhado de evidência: qual registro sustenta a conclusão. Sem isso, a investigação vira opinião com data.
Eficácia é medida, não declarada
O passo que mais se pula. “Ação implementada” não é o fim: o fim é mostrar que o desvio não voltou dentro de uma janela definida.
Isso exige que a NC saiba quais eventos observar — o mesmo tipo de desvio, no mesmo ponto, depois da data da ação. Se o sistema já abre a NC automaticamente a partir do evento, ele também consegue medir a eficácia automaticamente, contando a reincidência.
O que auditar no seu processo hoje
Três perguntas revelam quase tudo:
- Quantas NCs estão abertas há mais tempo que o prazo da própria classificação?
- Quantas foram fechadas sem registro de verificação de eficácia?
- Quantas nasceram de evento do sistema, e não de digitação?
A terceira é a mais reveladora. Um laboratório em que 100% das NCs são digitadas à mão não registra menos desvios que os outros — registra só os que alguém teve tempo de escrever.
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