Regulatório
Cadeia de custódia de amostras: o que registrar em cada movimento
Custódia não é o carimbo de recebimento. É a corrente de eventos que prova quem teve a amostra, quando, em que trajeto e sob que temperatura — e a RDC 786/2023 pede a corrente inteira, não as pontas.
Equipe Omnix7 min de leitura
Todo laboratório diz que tem rastreabilidade. Quase todo laboratório tem, na verdade, duas fotos: o momento da coleta e o momento em que o resultado saiu. O que aconteceu entre as duas — o trajeto, a espera na caixa térmica, a troca de turno — costuma existir só na memória de quem estava lá.
Cadeia de custódia é o registro contínuo desse meio. E é o que muda de figura na RDC 786/2023: a norma pede rastreabilidade digital e auditável da coleta ao descarte.
Os quatro campos de todo evento
Um evento de custódia responde sempre às mesmas quatro perguntas:
- Quem — o usuário que executou o ato, não o setor. Setor não assina.
- Quando — com fuso horário.
timestampsem fuso é ambiguidade esperando o horário de verão. - Onde — origem e destino, como unidades cadastradas, nunca texto livre.
- Em que condição — a temperatura medida no ato, comparada com a faixa esperada para aquele tipo de amostra.
Quando os quatro estão presentes em cada movimento, a corrente se fecha sozinha: o destino de um evento é a origem do próximo, e um buraco na sequência é visível sem auditoria manual.
As fases que importam
O ciclo mínimo que sustenta um laudo:
COLETA → RECEBIMENTO → PRÉ-ANALÍTICA → ANALÍTICA → PÓS-ANALÍTICA → LIBERAÇÃO — com REJEIÇÃO como saída possível a partir de qualquer ponto anterior à liberação.
Modelar isso como máquina de estados, e não como uma coluna de texto, resolve dois problemas de uma vez. O primeiro é a transição inválida: uma amostra não pode ser liberada sem ter sido recebida, e o sistema deve recusar a tentativa em vez de aceitar e deixar a inconsistência para o relatório descobrir. O segundo é o relatório de tempo por fase, que só existe se as fases forem entidades.
Temperatura é dado, não observação
O erro mais comum é registrar temperatura como campo livre preenchido “quando dá”. A norma espera comparação: valor medido contra faixa esperada, com ação registrada em caso de desvio.
Na prática, o recebimento precisa fazer três coisas no mesmo ato:
- gravar a temperatura medida como número com escala definida —
numeric(5,2), nunca ponto flutuante, porque a diferença entre 7,4 °C e 7,45 °C decide aceitação; - comparar com a faixa cadastrada para o tipo de amostra;
- abrir a não conformidade sozinho quando a faixa é violada, sem depender de alguém lembrar.
O terceiro item é o que separa um sistema que documenta de um sistema que controla. Desvio que depende de boa vontade para virar registro é desvio que não vira registro no dia corrido.
O trajeto tem prazo
Toda amostra tem um tempo máximo entre coleta e processamento — a estabilidade do analito. Se o transporte demora mais que isso, o resultado pode sair, mas não vale.
Comparar chegada − saída com o tempo máximo daquele transporte é aritmética trivial que quase nenhum sistema faz, porque o campo existe no cadastro e ninguém o lê. Quando o SLA estoura, a saída correta é a mesma da temperatura: não conformidade aberta automaticamente, com a amostra sinalizada antes de chegar à bancada.
O fim da corrente é o descarte
Os Arts. 45-52 fecham o ciclo no descarte: data, hora e método — autoclavagem, incineração, o que for. É a parte que a maioria dos sistemas não tem, porque o laudo já saiu e o interesse comercial acabou.
Mas é justamente o registro que responde à pergunta desagradável: “onde está a amostra do paciente X, coletada em março?”. Sem o evento de descarte, a resposta é o silêncio — e silêncio, na inspeção, tem o mesmo peso de material extraviado.
Como testar o seu sistema em cinco minutos
Pegue uma amostra que passou por duas unidades e tente responder, em uma tela:
- quem coletou e a que horas;
- quem despachou, para onde, e a temperatura de saída;
- quem recebeu, a que horas, e a temperatura de chegada;
- se a faixa foi respeitada — e, se não, qual NC foi aberta;
- quando o material foi descartado e por qual método.
Se qualquer resposta exigir sair do sistema, a cadeia está partida naquele elo. E a corrente vale pelo elo mais fraco, não pela média.
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